18.5.16

Capítulo final de "A História de Rosilene"

Cumprindo meu presságio, assim como perdeu um olho, cala-se, para de cantar, anda pelo quintal como se não tivesse compromisso com nada do que “disse”. Tento provocá-lo, mas não reage, perdeu a graça. O que você fez com ele, Rosilene? Nada. Eu não fiz nada! O galo se esconde debaixo do caramanchão, entre mato e pés de hibisco, num silêncio só. Dias depois, aparece morto. Pego seu corpo não crendo, ainda estava fresco, a carne macia... Foi newcastle... Era dessa doença que morriam muitas galinhas de meu irmão. Sem apresentar sintomas, apenas caíam. Giro o corpo nas mãos, apalpo-o, mas não apresenta sinais. Tinha sido mesmo newcastle... Se não tivesse lhe dado um nome seria mais fácil, mas com um nome tudo fica mais vivo, aumenta o afeto, a intimidade. Repeti o nome três vezes. Seu corpo foi se transformando numa massa azul, uma textura aveludada, acrílica, de pelúcia. Vi meus sentidos nublarem-se, meus braços, minhas roupas, meu corpo, em instantes estavam azuis. Lembro-me de ter ido para o quarto... Da cama, via o corredor. Minha irmã injetara em Ananias alguma estranha substância, ou a pura maldade, enfiara-o numa experiência de Dirac, numa lata de possibilidades, esfregara-o na antimatéria, lambuzara-o na teoria de tudo, Rosilene vinha cambaleante azul fosforescente em minha direção, oferecia-me um copo com um líquido grosso violeta cambiante, o quarto nave toda azul, turquesa, macio, radiava, o chão movia-se para cima e para baixo, como a desenhar curvas do espaço-tempo; na parede, dançava luminosa a fórmula de Dirac, o gato enorme azul negro passava entre minhas pernas e as de Rosilene.