6.12.14

TRECHO DO CONTO "O CÃO SEM NOME"

O Argemiro é doido, desses que se chama de doido, faz tudo o que ninguém quer fazer, lava peças, troca dinheiro, vai à padaria; acompanho-o, vou com ele comprar pão, buscar peças nos ferros-velhos; à noite, é o vigia, soca-se lá no fundo, vira uma pedra; o quarto feito de lata e papelão; o corpo que assume o tecido do ambiente, e ele não sabe se sonha com a Paraíba ou com a mãe, acho que não sonha com nada; desperta com o barulho das portas de aço sendo levantadas, não sabe se existe, nem como nem por que veio parar aqui, e se move entre a gente sem causar desordem; passa pelo dia, nada precisa de pergunta, nada precisa de resposta, tudo está explicado por uma demência exata, uma sanidade inversa; não se admira de nada, não se enfastia; nem dor de existir nem falação à toa; nem culpa nem felicidade; nem o que foi dito por alguém um dia ou o que foi esquecido; nem ninguém nem saudades; o mundo não é nada para ele, simplifica-se às ruas vizinhas, à padaria, ao restaurantezinho onde busca comida para os homens; chamam-no Paraibinha, Ranran, por dizer sim a tudo e não pronunciar as palavras, mas apenas dizer ranran; nem precisa ter nome, não sabe que o observo a todo instante e aprendo com ele a me livrar dos pensamentos ruins; parece que não sofre, parece cachorro e parece gente.