25.1.14

Trecho do conto "Os Galos"

Estávamos como dois galos cansados de lutar, as asas caídas, a sol morrendo sobre as duas aves irmãs. Vinham-me imagens do pai. A mãe já tinha perdido a graça com ele, não confiava nele, que ficou sentado num banco de pau esperando a comida, a mãe não trouxe, e ele pediu a mim que fizesse seu prato. Não devia ter voltado, devia ter tido vergonha. Meu irmão entrou no carro, fomos andando, calados. Sentia vontade de abraçá-lo, queria que tivesse o mesmo palpite, mas o irmão era um menino que tinha perdido o rumo, o destino, o sentido da vida. À noite, depois da janta, perguntei se ele se lembrava do Narciso e dos gatos. Ficou calado sem querer dar importância. Quase toda semana a gente fazia uma farra, o Narciso trazia um saco de gatos — fazíamos uma roda, vibrando —, e descia o pau nos bichos ali dentro, sem ligar se acertava as cabeças ou as costelas, até que parassem os miados. O Neneco tirava os couros, as vísceras, ferventava um pouco, fritava e fazia uma farofa. Antônio ficava calado, o outro irmão e eu ríamos com os outros meninos da rua, o pai às vezes estava com a gente, a mãe não via, o Neneco deixava as vasilhas bem limpinhas e ninguém falava mais naquilo até que chegasse outro dia de farra.

Um comentário:

gilvan magalhaes disse...

Paulinho,fiquei com a boca cheia ¨dágua¨com vontade de comer dessa farofa de gatos.
Abração amigo.