13.1.14

trecho do conto "O Cão Sem Nome", em que o cão-narrador fala de suas peripécias pela oficina do Holandês...

Dias sem nome, o ferro-velho, a rua, paisagens mortas, tudo diz que esse não é lugar para mim, penso que disparate seguir, a voz fica muito maior que tudo, preciso arranjar um modo de encerrar o matraquear dentro da cabeça, deixar que tudo se diga por si, mas parece que as coisas são por via do que digo, eu que dou graça ao que existe e ao que não existe aqui, que sigo Argemiro, que o faço andar, vou de um lado a outro, desando, golpeio o ar, precipito-me, arranho as paredes, vejo formarem-se sulcos e passagens, que ninguém imagina terem sido feitos por um cão, não imaginam nada, tudo perde curso, tudo é curso para algum lugar, lugar nenhum, atrás do que era pintura, massa, graxa, vão surgindo sinais, as paredes estão vivas, sou um cão velho, mas o Holandês não vai me descobrir, cão das margens, são elas, as margens, que se abrem, não importa que caiam placas inteiras de massa, a oficina foi instalada dentro de uma casa velha, as casas velhas trazem velhas impressões, há nomes esboçados, cães a migrar dentro das paredes, nomes que não são nomes de nada, traços rudes, garranchos que outros fizeram com os dentes no afã de uma linguagem, vão surgindo quase palavras, algum nexo, não posso descascar a oficina inteira, preciso ser breve, porque amanhece, aproveitar a luz fraca, assim noite após noite, vou ficando cego com a luz baça, preciso parar de quando em quando, fazer de conta que as ranhuras foram feitas pelo tempo, os nomes fundem-se com outras coisas, pássaros feitos por crianças, grafismos do acaso, corças que se arremetem contra o nada, existem por trás das manchas vermelhas e pretas, marrons, cinza, cor nenhuma, tecem-se labirinto e fuga, fios juntam-se, rompem-se, lugar averno, percurso para o quê, o adágio-manto, ensaio-grito, grafo acessos, os animais deslocam-se, andam pela oficina, os garranchos caminham e dançam entre os apagões da lâmpada, perco o medo, descascar as paredes não se afigura um dano para mim, sou os nomes, as inscrições do nada, funda-se tanta coisa em outro começo!, o mundo volte ao dia em que apenas o sim andava sobre as águas, e surja o lugar que não precise de mim a nomear.

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