6.8.13

Trecho do conto "Os galos", do livro homônimo.

Meu irmão e eu estávamos como dois galos cansados de lutar, as asas caídas, a sol morrendo sobre as aves irmãs. Vinham-me imagens de quando o pai voltou para casa. A mãe já tinha perdido a graça com ele, não confiava nele mais. Ele sentado num banco de pau esperando a comida. A mãe não trouxe. Ele pediu a mim que fizesse seu prato. Meu irmão entrou no carro, fomos andando, calados. Eu sentia vontade de abraçá-lo, queria que ele também tivesse o mesmo palpite. Ele parecia um menino que houvesse perdido o rumo. À noite, durante a janta, perguntei se ele se lembrava do Narciso e dos gatos. Quase toda semana a gente fazia uma farra, o Narciso trazia um saco de gatos — fazíamos uma roda —, e descia o pau nos bichos ali dentro, sem ligar se acertava as cabeças ou as costelas, até que parassem os miados. O Neneco tirava os couros, as vísceras, ferventava um pouco, fritava e fazia uma farofa. Antônio ficava calado, o outro irmão e eu ríamos com os outros meninos da rua. O pai às vezes estava com a gente, a mãe não via. O Neneco deixava as vasilhas bem limpinhas.