31.8.13

Trecho do conto "Joaquim, 1954"

Ele havia prometido levar os meninos e a mulher para verem o presidente, mostrar a eles que existia o lugar em que moravam e que existia a nação, que a nação era mais importante, que Getúlio era mais importante que a nação, a verdade que aprendia pelo rádio, do seu modo. Getúlio era o evangelho de Joaquim. Ela apenas ouvia o plano desmesurado. Já tinha cuidado de uma irmã e um irmão picados de cobra, via a morte nos olhos e na cor do homem, que vomitava demais. O boticário chegou silencioso, e silencioso aplicou as injeções, o que faria mais umas duas vezes. Vermelho Novo, um nada de lugar, como Vermelho Velho, entendia necas de Lacerda ou de Anjo Negro, nada de conspirações para desestabilizar o governo, mas entendia que Vargas salvava o café nas crises, queimando sacarias imensas, iludindo tudo em mil ardis, malabarismos para proteger a imagem, para que a UDN não tomasse tudo e transformasse o país em um ânus aberto, ou um mais aberto. Formou-se imenso arroxeado em torno da picada, as injeções não impediram a necrose, que edemas fossem tomando o corpo. Antônio rezava, ligava o rádio baixinho na esperança de que isso fizesse reviver o pai. O presidente sofria mais uma vaia, o locutor fazia rápida menção ao General Ciro do Espírito Santo, Jango exonerado do ministério do trabalho. Com um resto de consciência, Joaquim sabia que o rádio falava de Getúlio, e fez sinal para que o filho colocasse o aparelho na cabeceira da cama. Ouvia as notícias anuviadas, delirava com a fala do locutor cortada pelos estertores. Cesárea não ligou que Antônio levasse o rádio para o quarto. Teve uma nuvem rala de pensamento, fazer uma promessa, mas nunca foi dessas coisas; sua fé era seca, sem apetrechos; sua religião era benzer-se ao acordar e ao deitar, mas nem isso fazia agora nos dias e noites de cão.

12.8.13

OMBRO (Geraldo Lima)

Deixou a alça da blusa escorrer pelo ombro, descobrindo-o todo, desnudando-o sem pudor aparente, a pele, a carne, a parte mais visível do ser ali, dada, exposta, latejando. Esse pequeno descuido, esse relaxo quase sem propósito, esse marketing súbito, sem almejar um efeito imediato, ali, em plena avenida, a céu aberto, exposto aos olhos de Deus e do Diabo, dos que se julgam santos e dos que já se renderam a todo tipo de danação, isso, esse gesto sem um cálculo preciso, que veio assim sem esboço, sem script, sem o "Ação! gravando!" de algum diretor invisível, fez com ele desviasse alguns centímetros do trajeto, no que costumamos chamar de "perder o rumo", "ficar sem norte", "andar à deriva", fez com que se alienasse de tudo o mais à sua volta, questão de segundos, milésimos de segundo, uma eternidade na frequência dos desejos e do encanto.

6.8.13

Trecho do conto "Os galos", do livro homônimo.

Meu irmão e eu estávamos como dois galos cansados de lutar, as asas caídas, a sol morrendo sobre as aves irmãs. Vinham-me imagens de quando o pai voltou para casa. A mãe já tinha perdido a graça com ele, não confiava nele mais. Ele sentado num banco de pau esperando a comida. A mãe não trouxe. Ele pediu a mim que fizesse seu prato. Meu irmão entrou no carro, fomos andando, calados. Eu sentia vontade de abraçá-lo, queria que ele também tivesse o mesmo palpite. Ele parecia um menino que houvesse perdido o rumo. À noite, durante a janta, perguntei se ele se lembrava do Narciso e dos gatos. Quase toda semana a gente fazia uma farra, o Narciso trazia um saco de gatos — fazíamos uma roda —, e descia o pau nos bichos ali dentro, sem ligar se acertava as cabeças ou as costelas, até que parassem os miados. O Neneco tirava os couros, as vísceras, ferventava um pouco, fritava e fazia uma farofa. Antônio ficava calado, o outro irmão e eu ríamos com os outros meninos da rua. O pai às vezes estava com a gente, a mãe não via. O Neneco deixava as vasilhas bem limpinhas.