16.12.12

O labirinto é de todos

O livro do poeta-escritor e performer (estas são as suas faces que eu mais conheço), Wilian Fernandes Pereira, Zé Willl, como ele gosta de ser chamado, é o primeiro que vejo a tratar da questão gay no cenário editorial de Brasília. Com projeto gráfico simples e leve (apesar da ilustração requintada de Caio de Lucena Paixão), o livro reflete um autor anárquico, assistemático, um texto híbrido e descomportado, como são seus outros livros "Self-Portraitor" e "O discurso vazio", por exemplo. O primeiro grande lance de Zé Will foi ter eleito o mito de Teseu como referência para a compreensão do labirinto que é "estar no armário" ou dele sair; Ariadne e o novelo são a potência feminina, o fio para a conexão entre o mundo interior e o exterior, para a autocompreensão, para o aceitar-se. Outra astúcia é a visão do armário como uma coisa de todos. Claro! A sexualidade é uma causa da humanidade e todos escondemo-nos ou escondemos alguma coisa num armário ou mesmo num criado-mudo. "Todo mundo tem armário? Sim, todo mundo tem armário", e segue o autor a destrinchar seu enunciado. "Mas nem todo mundo coleciona esqueletos". Will aqui refere-se à expressão "skeletons in closet", nascida do bizarro hábito cultivado nos tempos de antanho — e certamente há quem ainda o faça, por apego, por esquisitice mesmo etc. — de colocar esqueletos no guarda-roupa, que com o tempo teria ganhado o status de construção idiomática, para falar dos segredos escondidos, recalques e outros, até gerar o "estar/sair do armário". O livro que não quer ser politicamente correto, fala da questão gay como ela na maioria das vezes se apresenta, nas saunas, nas pegações, shoppings, internet etc., desmontando algumas dessas coisas (como faz tão ferozmente com as boates) e ao o mesmo tempo dando toques para aqueles que estão se assumindo ou apenas querem saber sobre o intrincado assunto, como por exemplo: "para sair do labirinto, você vai precisar: 1)Localizar e entrar no labirinto(...); 2)Encontrar ajuda(...); 3)Matar o monstro: usar a espada e o golpe preciso, eficiente; 4)Sair do labirinto(...). E numa espécie de síntese positiva, postula: "Desafio maior é olhar-se no espelho, olhos nos olhos, e, sinceramente, dizer 'eu te amo, você está seguro, eu vou cuidar de você'(...)". O livro denuncia em mais de uma passagem a coisificação da causa, quando "para que se torne notável, a situação dos gays (ou melhor, a questão do reconhecimento e do respeito à diversidade sexual) ganha espaço na grande mídia, mas perde seus elementos de essencialidade humana, de fraternidade... e tudo o que se vê é um modelo ridiculamente redutivo, para que os outros 'candidatos' a (ser) gay possam copiar (e comprar, comprar , comprar!)". Fala da linearidade presente na educação, que é "artificial, brutalizante", que mortifica o paradoxo, de uma "desinterpretação imposta pelas lentes através das quais vemos a realidade". O autor prefere a ironia e as expressões coloquiais ao discurso acadêmico, o que parece, por outro lado, causar certo prejuízo ao livro, quando essas expressões são exageradas e o discurso aproxima-se muito do senso comum. Exemplo disso ocorre quando é mencionado e questionado o conceito homoafetividade. Will parece descrer do mesmo, associando-o e confundindo-o com "o amor que um pai tem por seus filhos homens" e vice-versa, naturalmente. E lasca uma de seus colóquios/gírias: "'Se liga' nos radicais, no que dizem as palavras(...)", quando a etmologia, o radical aí podem até sugerir isso, mas não é essa a significação atual do termo. Como quase tudo que vi até hoje de publicações sobre o assunto, o autor trata da questão como sendo um problema de homens, não fala do lesbianismo. É como se esse lado da homoafetividade fosse menos grave, menos sério, como se gays em geral e a sociedade não percebessem a mulher nesse aspecto. A fúria e a ânsia com que Zé Will escreve fazem-nos pensar em seu livro como um projeto para outras edições, fora de Brasília (que "não dá camisa a ninguém", quando se trata da questão editorial), com mais rigor em todos os aspectos. Por fim, o livro está a venda no endereço http://gocael.com/loja/, merece e precisa ser lido por tantos que andam pelo mundo sem a noção necessária de sua dignidade, das significações políticas e estéticas possíveis dos seus atos e gestos. Por Vicente de Paulo Siqueira