19.4.12

Um Balanço de Zeca Baleiro...

Um Pequeno Balanço de Zeca Baleiro e seu disco novo,
por Vicente de Paulo Siqueira

Baleiro raiou nos fins da década de 90 como uma salvação para a década triste, com uma sequência de discos que, se não eram portadores da novidade, mostravam uma poética cheia de humor e achados, referências a outros poetas/cantores, paráfrases, arranjos requintados e uma presença de palco muita esperta, o que se dá na mesma época em que surgem Chico Science, Carlinhos Brown e Chico César.
Os discos “Por onde andará Stephen Fry” (1997)), “Vô imbolá” (1999) e “Líricas” (2002 ) conseguem manter certo equilíbrio nas composições, alegra, traz novo ar ao panorama musical brasileiro, o que é levado ao extremo no “Líricas”. Em seu quarto disco, “Pet shop mundo cão”, o compositor decai . Zeca não deixa de ser um cantor inventivo, mas no mais o disco é barulhento e chato (exceção feita às canções “Mundo dos negócios”, “Telegrama”, e a belíssima “A serpente”), e não consegue a graça dos primeiros. Não vou falar do disco “Raimundo Fagner e Zeca Baleiro - Daqui pra lá, de lá pra cá” (2003), poque não ouvi...
Em 2007, o maranhense retoma o folego criativo e lança “Baladas do Asfalto e Outros Blues”, um disco forte, que tem unidade e poesia. Destaco as músicas “Versos perdidos”, “Balada do asfalto”, “Cachorro doido”, “Flores do asfalto” “Balada do céu negro”, “Cigarro” e “Muzak” e “O silêncio” (essa todo mundo tem que conhecer...), quer dizer, quase o disco todo.
Entre 2007 e 2008, o autor de “Lenha” (música que gerou a rusga com Caetano Veloso, porque o baiano disse que a música é chata, e há que se concordar...) lança “Lado Z” e “O Coração do Homem Bomba - Vol. 1” e “O Coração do Homem Bomba - Vol. 2”, discos monótonos e muito pouco criativos.
Em 2010, é a vez de “Concerto”, em que Zeca se refaz, trazendo pouca coisa sua, mas elencando pérolas do nosso cancioneiro, e canta Cartola, Odair José, Lula Cortes (“Desengano”), Tom Zé ( a maravilhosa “Menina Jesus”), Chico César, que deu para o cd a canção de feição potuguesa e muito linda, “Barco”.
Sei que não falei tudo... Zeca Baleiro fez trilhas, produziu um disco póstumo de Sérgio Sampaio, entre outras modas.
Agora está na praça o novo cd, “O DISCO DO ANO”, nome que insinua o gosto pelo mercado, quero dizer, pela venda, tão forte em Zeca, o que é expresso, inclusive, pela capa em que o artista aparece atrás de um balcão e uma máquina registradora antiga, num bar, com pinta de vendeiro cuidadoso, bem vestido e zeloso por seu ofício. Aliás, toda a capa é um primor, formato de álbum, com dois encartes separados em formato de caderninho, cd com textura de vinil... Mas e as canções? Pouco se salva... Devemos citar “O desejo: O tempo é cruel, mas é tudo que tem / Tudo mais é sobra, lixo, lata / Prata barata, vintém / Sim, o tempo passa, a vida segue / Não estanca o corte / Hoje eu não temo a morte / Azar ou sorte? / (...) e “Último Post”, que fez em parceria com a poeta Lúcia Santos: “Escrevo cartas pro mesmo endereço /Chamo o teu santo nome / em vão num verso/ Amo, reclamo, protesto /Não me calo, grito alto /
Tropeço na tua frente”.
É assim a vida do compositor...
Tem que vender, mas tem que criar, mas tem vender...