21.10.10

Clara

“Encarou-a pela última vez
— ela se espantou de tanto amor.
O punhal caído a seus pés, deu-lhe as costas
e sumiu na curva da pitangueira.”
(- Dalton Trevisan — ”O Primo”)

Precisava pensar aquilo, sair do desconforto que a notícia causava, penetrar o veio do acontecido, ir puxando um a um os detalhes, trazer o tema a lume, apará-lo, revisá-lo, diluí-lo quase; simplificar o inferno, a grosseria, querer algo mínimo, um corte da cena, sem os dias que passaram antes, sem os que passariam depois, sem os lugares da falação, a rudeza, a lágrima; um quadro do romance: a luz rala incidindo no corpo de Clara, ele descalçando os sapatos, deixando cair o pulôver no tapete, caminhando lento para o quarto, arrancando o cinto, a primeira fivelada; a seda do baby-doll partindo-se, os tapas; não ficar enumerando pormenores; no lodo achar a singeleza, o lábio de Clara silencioso agora, tremendo, o gesto dele no outro dia: erguer a gaze à luz da manhã, afundá-la n’água morna, colocar no rosto dela, repetir esse gesto até que as faces estivessem cobertas, reaquecer a água e ir colocando outra camada, abaixar com as pontas dos dedos a pálpebras, conter o desejo imenso de dar ali um beijo, perdoá-la, perdoá-la, setecentas vezes.

Rock

“Rosas sedentas mexiam-se nas trevas.”
(Isaac Babel,
in A igreja de Novograd — A Cavalaria Vermelha)

E dizia para a nuvem: fica verde, e ela ficava; e dizia para o céu; dança, e ele dançava; e via tapetes imensos tecidos por um gênio fauvista, desenhos e risos de crianças; e a viagem não terminava, e entrava por um caminho de pétalas: o inferno, rio amargo, cavalgar Cérbero, estar com o Barqueiro; os círculos, em cada um perder-se infinitamente; as regiões de enxofre, os espaços enormes habitados pelo nada. Numa pequena sala, um agente do Hades lhe entrega uma folha para que escrevesse aos seus: Mãe, brinquei demais com o cogumelo e misturei umas drogas pesadas. Estou no último degrau do abismo. Não volto mais. Abraços no pai. Diz para os meninos da banda que eles não podem parar por minha causa. Queria escrever mais, mas me falta o ânimo. Adeus. Dado. O agente o conduz a outra sala, pede a ele que se deite em uma maca muito branca, que feche os olhos; segura suas pálpebras levemente até que adormeça, e afunda a mão precisa em seu peito, tira o coração e, estendendo o braço comprido, entrega a um belíssimo jovem que espera com uma baixela próximo à porta, e este, com uma profissional delicadeza, cumprimenta lento com a cabeça, curva-se para a porta e vai por um corredor imenso, como quem navegasse, como quem não voltasse, até sumir.