17.8.16

Marido

Sonhava que voltava para o marido, Minas, o círculo de novo, Cerro, Curvelo, Três Marias, Belo Horizonte, a cidade gigante entrando para dentro de seu corpo, a luz sumindo, a madrugada, cão que tragava seu corpo, draga, a mãe rediviva dizendo: “Vem, minha filha, sai daí...”, os filhos novinhos de novo desenhando um animal indefinido.

18.5.16

Capítulo final de "A História de Rosilene"

Cumprindo meu presságio, assim como perdeu um olho, cala-se, para de cantar, anda pelo quintal como se não tivesse compromisso com nada do que “disse”. Tento provocá-lo, mas não reage, perdeu a graça. O que você fez com ele, Rosilene? Nada. Eu não fiz nada! O galo se esconde debaixo do caramanchão, entre mato e pés de hibisco, num silêncio só. Dias depois, aparece morto. Pego seu corpo não crendo, ainda estava fresco, a carne macia... Foi newcastle... Era dessa doença que morriam muitas galinhas de meu irmão. Sem apresentar sintomas, apenas caíam. Giro o corpo nas mãos, apalpo-o, mas não apresenta sinais. Tinha sido mesmo newcastle... Se não tivesse lhe dado um nome seria mais fácil, mas com um nome tudo fica mais vivo, aumenta o afeto, a intimidade. Repeti o nome três vezes. Seu corpo foi se transformando numa massa azul, uma textura aveludada, acrílica, de pelúcia. Vi meus sentidos nublarem-se, meus braços, minhas roupas, meu corpo, em instantes estavam azuis. Lembro-me de ter ido para o quarto... Da cama, via o corredor. Minha irmã injetara em Ananias alguma estranha substância, ou a pura maldade, enfiara-o numa experiência de Dirac, numa lata de possibilidades, esfregara-o na antimatéria, lambuzara-o na teoria de tudo, Rosilene vinha cambaleante azul fosforescente em minha direção, oferecia-me um copo com um líquido grosso violeta cambiante, o quarto nave toda azul, turquesa, macio, radiava, o chão movia-se para cima e para baixo, como a desenhar curvas do espaço-tempo; na parede, dançava luminosa a fórmula de Dirac, o gato enorme azul negro passava entre minhas pernas e as de Rosilene.  

6.12.14

TRECHO DO CONTO "O CÃO SEM NOME"

O Argemiro é doido, desses que se chama de doido, faz tudo o que ninguém quer fazer, lava peças, troca dinheiro, vai à padaria; acompanho-o, vou com ele comprar pão, buscar peças nos ferros-velhos; à noite, é o vigia, soca-se lá no fundo, vira uma pedra; o quarto feito de lata e papelão; o corpo que assume o tecido do ambiente, e ele não sabe se sonha com a Paraíba ou com a mãe, acho que não sonha com nada; desperta com o barulho das portas de aço sendo levantadas, não sabe se existe, nem como nem por que veio parar aqui, e se move entre a gente sem causar desordem; passa pelo dia, nada precisa de pergunta, nada precisa de resposta, tudo está explicado por uma demência exata, uma sanidade inversa; não se admira de nada, não se enfastia; nem dor de existir nem falação à toa; nem culpa nem felicidade; nem o que foi dito por alguém um dia ou o que foi esquecido; nem ninguém nem saudades; o mundo não é nada para ele, simplifica-se às ruas vizinhas, à padaria, ao restaurantezinho onde busca comida para os homens; chamam-no Paraibinha, Ranran, por dizer sim a tudo e não pronunciar as palavras, mas apenas dizer ranran; nem precisa ter nome, não sabe que o observo a todo instante e aprendo com ele a me livrar dos pensamentos ruins; parece que não sofre, parece cachorro e parece gente.

25.1.14

Trecho do conto "Os Galos"

Estávamos como dois galos cansados de lutar, as asas caídas, a sol morrendo sobre as duas aves irmãs. Vinham-me imagens do pai. A mãe já tinha perdido a graça com ele, não confiava nele, que ficou sentado num banco de pau esperando a comida, a mãe não trouxe, e ele pediu a mim que fizesse seu prato. Não devia ter voltado, devia ter tido vergonha. Meu irmão entrou no carro, fomos andando, calados. Sentia vontade de abraçá-lo, queria que tivesse o mesmo palpite, mas o irmão era um menino que tinha perdido o rumo, o destino, o sentido da vida. À noite, depois da janta, perguntei se ele se lembrava do Narciso e dos gatos. Ficou calado sem querer dar importância. Quase toda semana a gente fazia uma farra, o Narciso trazia um saco de gatos — fazíamos uma roda, vibrando —, e descia o pau nos bichos ali dentro, sem ligar se acertava as cabeças ou as costelas, até que parassem os miados. O Neneco tirava os couros, as vísceras, ferventava um pouco, fritava e fazia uma farofa. Antônio ficava calado, o outro irmão e eu ríamos com os outros meninos da rua, o pai às vezes estava com a gente, a mãe não via, o Neneco deixava as vasilhas bem limpinhas e ninguém falava mais naquilo até que chegasse outro dia de farra.

13.1.14

trecho do conto "O Cão Sem Nome", em que o cão-narrador fala de suas peripécias pela oficina do Holandês...

Dias sem nome, o ferro-velho, a rua, paisagens mortas, tudo diz que esse não é lugar para mim, penso que disparate seguir, a voz fica muito maior que tudo, preciso arranjar um modo de encerrar o matraquear dentro da cabeça, deixar que tudo se diga por si, mas parece que as coisas são por via do que digo, eu que dou graça ao que existe e ao que não existe aqui, que sigo Argemiro, que o faço andar, vou de um lado a outro, desando, golpeio o ar, precipito-me, arranho as paredes, vejo formarem-se sulcos e passagens, que ninguém imagina terem sido feitos por um cão, não imaginam nada, tudo perde curso, tudo é curso para algum lugar, lugar nenhum, atrás do que era pintura, massa, graxa, vão surgindo sinais, as paredes estão vivas, sou um cão velho, mas o Holandês não vai me descobrir, cão das margens, são elas, as margens, que se abrem, não importa que caiam placas inteiras de massa, a oficina foi instalada dentro de uma casa velha, as casas velhas trazem velhas impressões, há nomes esboçados, cães a migrar dentro das paredes, nomes que não são nomes de nada, traços rudes, garranchos que outros fizeram com os dentes no afã de uma linguagem, vão surgindo quase palavras, algum nexo, não posso descascar a oficina inteira, preciso ser breve, porque amanhece, aproveitar a luz fraca, assim noite após noite, vou ficando cego com a luz baça, preciso parar de quando em quando, fazer de conta que as ranhuras foram feitas pelo tempo, os nomes fundem-se com outras coisas, pássaros feitos por crianças, grafismos do acaso, corças que se arremetem contra o nada, existem por trás das manchas vermelhas e pretas, marrons, cinza, cor nenhuma, tecem-se labirinto e fuga, fios juntam-se, rompem-se, lugar averno, percurso para o quê, o adágio-manto, ensaio-grito, grafo acessos, os animais deslocam-se, andam pela oficina, os garranchos caminham e dançam entre os apagões da lâmpada, perco o medo, descascar as paredes não se afigura um dano para mim, sou os nomes, as inscrições do nada, funda-se tanta coisa em outro começo!, o mundo volte ao dia em que apenas o sim andava sobre as águas, e surja o lugar que não precise de mim a nomear.

28.11.13

Laços de Família

Celina saiu com o namorado. Dormiu fora. A filha com um filhinho em casa. A outra filha sempre com uma dor de cabeça e um silêncio de morrer. O namorado daria a Celina um dinheiro, uma forma de pensão.

Espírito Santo de Débora

Ela concebeu de tardezinha, quando chegou da escola. A mãe não acreditava, o pai não cabia em si. Débora disse não sentir arrependimento, porque Jesus entrou coberto por um edredom estampado e a abraçou, um abraço que pareceu penetrá-la, mas era penetração de luz... Na sétima série, ela iria parar de estudar; o pai, sumir no mundo; a mãe, afundar-se em rezas, o menino nascer antes de dezembro.

Mães

Parou de ler, ficou pensando. O cigarro, as palavras. Fumava desde a adolescência. Bateram no portão. Não, não era ninguém. A mãe falava que escrever e fumar estavam lhe tirando a vida. Latidos esparsos. O silêncio ganindo. Nenhum canto de galo. Onde estavam os galos? Num conto de Garcia Màrquez?, num poema de João Cabral? Antes havia os cheiros de doces, os abacateiros, laranjeiras, pessoas de verdade chamavam nos portões e entravam, as mães cuidavam dos quintais. As palavras, os cigarros. Bateram no portão de novo. Foi ver quem era.

31.8.13

Trecho do conto "Joaquim, 1954"

Ele havia prometido levar os meninos e a mulher para verem o presidente, mostrar a eles que existia o lugar em que moravam e que existia a nação, que a nação era mais importante, que Getúlio era mais importante que a nação, a verdade que aprendia pelo rádio, do seu modo. Getúlio era o evangelho de Joaquim. Ela apenas ouvia o plano desmesurado. Já tinha cuidado de uma irmã e um irmão picados de cobra, via a morte nos olhos e na cor do homem, que vomitava demais. O boticário chegou silencioso, e silencioso aplicou as injeções, o que faria mais umas duas vezes. Vermelho Novo, um nada de lugar, como Vermelho Velho, entendia necas de Lacerda ou de Anjo Negro, nada de conspirações para desestabilizar o governo, mas entendia que Vargas salvava o café nas crises, queimando sacarias imensas, iludindo tudo em mil ardis, malabarismos para proteger a imagem, para que a UDN não tomasse tudo e transformasse o país em um ânus aberto, ou um mais aberto. Formou-se imenso arroxeado em torno da picada, as injeções não impediram a necrose, que edemas fossem tomando o corpo. Antônio rezava, ligava o rádio baixinho na esperança de que isso fizesse reviver o pai. O presidente sofria mais uma vaia, o locutor fazia rápida menção ao General Ciro do Espírito Santo, Jango exonerado do ministério do trabalho. Com um resto de consciência, Joaquim sabia que o rádio falava de Getúlio, e fez sinal para que o filho colocasse o aparelho na cabeceira da cama. Ouvia as notícias anuviadas, delirava com a fala do locutor cortada pelos estertores. Cesárea não ligou que Antônio levasse o rádio para o quarto. Teve uma nuvem rala de pensamento, fazer uma promessa, mas nunca foi dessas coisas; sua fé era seca, sem apetrechos; sua religião era benzer-se ao acordar e ao deitar, mas nem isso fazia agora nos dias e noites de cão.

12.8.13

OMBRO (Geraldo Lima)

Deixou a alça da blusa escorrer pelo ombro, descobrindo-o todo, desnudando-o sem pudor aparente, a pele, a carne, a parte mais visível do ser ali, dada, exposta, latejando. Esse pequeno descuido, esse relaxo quase sem propósito, esse marketing súbito, sem almejar um efeito imediato, ali, em plena avenida, a céu aberto, exposto aos olhos de Deus e do Diabo, dos que se julgam santos e dos que já se renderam a todo tipo de danação, isso, esse gesto sem um cálculo preciso, que veio assim sem esboço, sem script, sem o "Ação! gravando!" de algum diretor invisível, fez com ele desviasse alguns centímetros do trajeto, no que costumamos chamar de "perder o rumo", "ficar sem norte", "andar à deriva", fez com que se alienasse de tudo o mais à sua volta, questão de segundos, milésimos de segundo, uma eternidade na frequência dos desejos e do encanto.

6.8.13

Trecho do conto "Os galos", do livro homônimo.

Meu irmão e eu estávamos como dois galos cansados de lutar, as asas caídas, a sol morrendo sobre as aves irmãs. Vinham-me imagens de quando o pai voltou para casa. A mãe já tinha perdido a graça com ele, não confiava nele mais. Ele sentado num banco de pau esperando a comida. A mãe não trouxe. Ele pediu a mim que fizesse seu prato. Meu irmão entrou no carro, fomos andando, calados. Eu sentia vontade de abraçá-lo, queria que ele também tivesse o mesmo palpite. Ele parecia um menino que houvesse perdido o rumo. À noite, durante a janta, perguntei se ele se lembrava do Narciso e dos gatos. Quase toda semana a gente fazia uma farra, o Narciso trazia um saco de gatos — fazíamos uma roda —, e descia o pau nos bichos ali dentro, sem ligar se acertava as cabeças ou as costelas, até que parassem os miados. O Neneco tirava os couros, as vísceras, ferventava um pouco, fritava e fazia uma farofa. Antônio ficava calado, o outro irmão e eu ríamos com os outros meninos da rua. O pai às vezes estava com a gente, a mãe não via. O Neneco deixava as vasilhas bem limpinhas.

16.12.12

O labirinto é de todos

O livro do poeta-escritor e performer (estas são as suas faces que eu mais conheço), Wilian Fernandes Pereira, Zé Willl, como ele gosta de ser chamado, é o primeiro que vejo a tratar da questão gay no cenário editorial de Brasília. Com projeto gráfico simples e leve (apesar da ilustração requintada de Caio de Lucena Paixão), o livro reflete um autor anárquico, assistemático, um texto híbrido e descomportado, como são seus outros livros "Self-Portraitor" e "O discurso vazio", por exemplo. O primeiro grande lance de Zé Will foi ter eleito o mito de Teseu como referência para a compreensão do labirinto que é "estar no armário" ou dele sair; Ariadne e o novelo são a potência feminina, o fio para a conexão entre o mundo interior e o exterior, para a autocompreensão, para o aceitar-se. Outra astúcia é a visão do armário como uma coisa de todos. Claro! A sexualidade é uma causa da humanidade e todos escondemo-nos ou escondemos alguma coisa num armário ou mesmo num criado-mudo. "Todo mundo tem armário? Sim, todo mundo tem armário", e segue o autor a destrinchar seu enunciado. "Mas nem todo mundo coleciona esqueletos". Will aqui refere-se à expressão "skeletons in closet", nascida do bizarro hábito cultivado nos tempos de antanho — e certamente há quem ainda o faça, por apego, por esquisitice mesmo etc. — de colocar esqueletos no guarda-roupa, que com o tempo teria ganhado o status de construção idiomática, para falar dos segredos escondidos, recalques e outros, até gerar o "estar/sair do armário". O livro que não quer ser politicamente correto, fala da questão gay como ela na maioria das vezes se apresenta, nas saunas, nas pegações, shoppings, internet etc., desmontando algumas dessas coisas (como faz tão ferozmente com as boates) e ao o mesmo tempo dando toques para aqueles que estão se assumindo ou apenas querem saber sobre o intrincado assunto, como por exemplo: "para sair do labirinto, você vai precisar: 1)Localizar e entrar no labirinto(...); 2)Encontrar ajuda(...); 3)Matar o monstro: usar a espada e o golpe preciso, eficiente; 4)Sair do labirinto(...). E numa espécie de síntese positiva, postula: "Desafio maior é olhar-se no espelho, olhos nos olhos, e, sinceramente, dizer 'eu te amo, você está seguro, eu vou cuidar de você'(...)". O livro denuncia em mais de uma passagem a coisificação da causa, quando "para que se torne notável, a situação dos gays (ou melhor, a questão do reconhecimento e do respeito à diversidade sexual) ganha espaço na grande mídia, mas perde seus elementos de essencialidade humana, de fraternidade... e tudo o que se vê é um modelo ridiculamente redutivo, para que os outros 'candidatos' a (ser) gay possam copiar (e comprar, comprar , comprar!)". Fala da linearidade presente na educação, que é "artificial, brutalizante", que mortifica o paradoxo, de uma "desinterpretação imposta pelas lentes através das quais vemos a realidade". O autor prefere a ironia e as expressões coloquiais ao discurso acadêmico, o que parece, por outro lado, causar certo prejuízo ao livro, quando essas expressões são exageradas e o discurso aproxima-se muito do senso comum. Exemplo disso ocorre quando é mencionado e questionado o conceito homoafetividade. Will parece descrer do mesmo, associando-o e confundindo-o com "o amor que um pai tem por seus filhos homens" e vice-versa, naturalmente. E lasca uma de seus colóquios/gírias: "'Se liga' nos radicais, no que dizem as palavras(...)", quando a etmologia, o radical aí podem até sugerir isso, mas não é essa a significação atual do termo. Como quase tudo que vi até hoje de publicações sobre o assunto, o autor trata da questão como sendo um problema de homens, não fala do lesbianismo. É como se esse lado da homoafetividade fosse menos grave, menos sério, como se gays em geral e a sociedade não percebessem a mulher nesse aspecto. A fúria e a ânsia com que Zé Will escreve fazem-nos pensar em seu livro como um projeto para outras edições, fora de Brasília (que "não dá camisa a ninguém", quando se trata da questão editorial), com mais rigor em todos os aspectos. Por fim, o livro está a venda no endereço http://gocael.com/loja/, merece e precisa ser lido por tantos que andam pelo mundo sem a noção necessária de sua dignidade, das significações políticas e estéticas possíveis dos seus atos e gestos. Por Vicente de Paulo Siqueira